Estruturas, ciclos e poder no carnaval de acesso do Rio de Janeiro
Escrevo este texto em caráter pessoal, como observadora do carnaval de acesso e como alguém que acredita na força institucional do samba. Não se trata de uma crítica dirigida a pessoas ou gestões específicas, mas de uma reflexão sobre como certos arranjos estruturais, ao longo do tempo, vêm expondo o sistema a questionamentos recorrentes sobre governança e imparcialidade.
Quando se percorre a história dos grupos de acesso no Rio de Janeiro, torna-se difícil ignorar que a relação entre presidentes de escolas e presidências das ligas raramente se limitou ao campo administrativo. Em diferentes momentos, essa proximidade parece ter moldado decisões, influenciado disputas internas e impactado a percepção pública sobre a credibilidade da gestão e da apuração. Não se trata de um episódio isolado, mas de uma dinâmica que atravessa formatos organizacionais distintos e reaparece, sob novas configurações, sempre acompanhada de tensões e questionamentos formais.
Na época da LESGA, essa sobreposição de papéis era especialmente evidente. Um abaixo-assinado que pedia uma CPI afirmava que dirigentes da liga acumulavam funções centrais do processo ao mesmo tempo em que presidiam suas próprias escolas. Reginaldo Gomes presidia a Inocentes de Belford Roxo e também a LESGA, enquanto Antonio Carlos Salomão presidia a Renascer de Jacarepaguá e ocupava a vice-presidência da entidade. O documento mencionava ainda um episódio em que a Renascer teria descumprido o regulamento ao utilizar uma escultura reaproveitada sem sofrer punição, o que reforçou a percepção de parcialidade entre parte das agremiações. Esses pontos constam na Petição Pública de 2011 e em registros jornalísticos do período.
Posteriormente, a LESGA foi afastada pela Riotur sob alegação de descumprimento de cláusulas contratuais e em meio a rumores de manipulação de notas. Ainda que não tenha havido decisão judicial definitiva reconhecendo irregularidades estruturais, o afastamento indicava que o modelo enfrentava questionamentos relevantes no plano administrativo e político.
Com a criação de uma nova estrutura, o discurso público passou a ser de reorganização. No entanto, a dinâmica de disputa interna pelo comando da entidade permaneceu. Em 2019, o processo que levou Wallace Palhares, então ex-presidente da Acadêmicos do Sossego (atual Acadêmicos de Niterói), à presidência da liga foi contestado judicialmente. Marcos Teles, presidente do Império da Tijuca e integrante do Conselho Deliberativo da LIERJ, afirmou que a assembleia não havia sido convocada para eleger nova diretoria.
Algumas decisões também revelam a interdependência entre escolas e liga. A partir de 2020, a escolha dos jurados da Série A deixou de ser feita pela Riotur e retornou à entidade organizadora do acesso. Até então, a prefeitura havia assumido essa responsabilidade como medida para ampliar a transparência após resultados contestados. O retorno da atribuição reacendeu o debate sobre a influência das agremiações em etapas sensíveis do processo, mesmo que tal configuração não seja, por si só, prova de irregularidade.
No ciclo mais recente da organização do acesso, vieram a público acusações direcionadas à estrutura da entidade, registradas formalmente junto às autoridades e repercutidas pela imprensa. Entre os responsáveis pelas declarações está Reginaldo Gomes, que em períodos anteriores integrou instâncias centrais da entidade. O episódio evidencia não apenas a intensidade da disputa institucional, mas também como a configuração interna do poder se reestrutura ao longo do tempo.
O que emerge desse conjunto de episódios documentados é uma estrutura historicamente marcada pela forte proximidade entre dirigentes de escolas e o comando das entidades organizadoras do carnaval do acesso. Essa configuração não implica automaticamente a existência de ilegalidade, mas pode gerar conflitos de interesse e fragilizar a percepção de imparcialidade. A alternância de nomes e de marcas organizacionais não altera necessariamente essa dinâmica.
O debate sobre governança no acesso não começa agora e tampouco se encerra em uma gestão específica. Ele atravessa formatos institucionais, ciclos políticos e diferentes arranjos internos. Reconhecer essa continuidade não significa imputar ilegalidades, mas admitir que determinados modelos podem manter o sistema exposto a questionamentos recorrentes. Se o carnaval é patrimônio cultural e paixão coletiva, fortalecer suas estruturas e seus mecanismos de governança também é parte desse compromisso.